Conto – Melhor no Esquecimento: A História da Fogo das Bruxas [Oficial]

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Descubra mais sobre o item que é considerado pela Ordem da Iluminação como a relíquia mais complexa e maléfica já descoberta. Para quem jogou a Fogo das Bruxas ela é mais que uma espada. Para quem conhece de Reinos de Ferro ela é muito mais que um item mágico. Uma viagem ao sul de Cygnar envolvendo personagens conhecidos em busca desta lendária espada. Acompanhem.




Conto escrito por Douglas Seacat para No Quarter #3
Traduzido por Felipe Barros

591 D.R., durante o reinado de Vinter Raelthorne IV, Gruta da Engrenagem 

Dexer Sirac desceu pelos degraus até o sombrio porão da casa desordenada e cheirou o ar com desdém. Havia um aroma peculiar e desagradável no ar, onde camadas velhas de medo e suor permeavam as paredes. Ele teria ficado surpreso com a imundície do lugar, se não estivesse familiarizado com o tipo de pessoa que vivia ali – um homem tão absorvido por sua miserável obsessão e assombrado por suas escolhas que se esquecera de detalhes mais mundanos da vida.

O porão era parcamente iluminado por velas e uma lanterna que jogava sombras tremulantes sobre as superfícies totalmente preenchidas com livros. O chão estava coberto de pedaços de pergaminho, tiras de tecido ensanguentadas, e outros itens indistintos e ainda mais desagradáveis sob aquela iluminação inadequada. Um odor de decadência recente indicava que alguma comida havia sido deixada para apodrecer ali, talvez oculta entre às pilhas de livros e manuscritos. Sirac observou os títulos nas lombadas dos livros, descartando a maioria deles, e se demorando em outros. Do outro lado do aposento, em meio às sombras, estava um homem corcunda que ainda não o havia percebido.

“Gorzen Montlebore”. Ele pronunciou alto o nome.

“Ah!” Gorzen se virou rapidamente. O homem esquálido tinha olhos profundos, pele fina e sebosa, e se curvou como se sua espinha tivesse se dobrado. “É você. Você me assustou”.

“Claramente”. Sirac disse em tom zombador. “Sua porta estava trancada e bloqueada. Você se esqueceu de nosso encontro?”

O homem gaguejou. “Cla… Claro que não. Não”. Ele percebeu pela primeira vez que Dexer Sirac estava vestindo seu traje completo de inquisidor – coisa que não fizera em nenhuma de suas visitas anteriores. Gorzen engoliu em seco e apoiou uma mão sobre a mesa em busca de estabilidade.

Dexer Sirac o observou com sua face oculta pelas sombras. “Sua dívida já venceu”.

Então Gorzen sorriu maliciosamente. Um brilho de entusiasmo se formou sem seus olhos como um eco de tempos esquecidos, antes de sua alma se enegrecer. “Eu o tenho, desta vez. Sua busca chegou ao fim”.

Se Sirac sentiu alguma agitação antecipada, ele não demonstrou em seus olhar frio e resoluto. “Me decepcione por sua conta e risco, Gorzen. Uma morte a mais não será problema pra mim”.

“Lembre-se da promessa que me fez”. Gorzen disse, atemorizado. Ele não queria exigir novas garantias, mas não conseguiu se segurar.

“Nenhum mal virá até você por minhas mãos ou por minhas ordens, desde que tenha o que eu quero. Você tem todas as razões para me temer, mas minha posição só pode ser mantida com informações, e você é um de meus fornecedores. Você tem a habilidade de descobrir o que eu não posso, através de seus… contatos”. Ele disse, contendo o escárnio em sua voz.

O homem nervoso encarou Sirac com desconfiança. “Suponho que sim…”

“Antes que eu fique mais impaciente, diga-me o que descobriu”.

O brilho de entusiasmo reapareceu nos olhos de Gorzen. Seu sorriso escancarado era uma desagradável produção composta de uma combinação bizarra de dentes podres e gengivas. “Isso é realmente genial. Não sei como não pensamos nisso antes. Um local onde pudesse permanecer por séculos sem chamar qualquer atenção”.

“Pare de falar em enigmas”. Sirac de aproximou de Gorzen e sua presença inabalável pareceu se agigantar sobre ele.

Ele se encolheu diante da aproximação de Sirac e começou a falar rapidamente. “Nenhum outro que não eu poderia ter encontrado isso”. Seus dedos rastreando documentos sobre a mesa atrás dele, e então estendeu servilmente um pedaço de papel diante dos olhos do inquisidor. Era antigo, mas os olhos treinados de Sirac detectaram ser uma cópia manuscrita como as transcritas repetidamente nos velhos corredores da história. O arcaico sistema datava do calendário usado antes da invasão Orgoth.

“Um registro de navios?”

Gorzen assentiu. “Roubado de um pequeno secto dos monges de Doleth, a oeste de Orven. Eles preservam antigos registros de navegação. Estou convencido que o Promessa de Thuria estava carregando a lâmina”.

Dexer Sirac sentiu crescer a excitação, mas controlou sua expressão. Sirac se orgulhava de sua capacidade para farejar enganações e mentiras. Era normalmente um fedor familiar em Gorzen, mas agora estava ausente. “E qual foi o destino desse navio?”

A voz de Gorzen ganhou confiança. “Eu acredito que foi capturado ao sul do que hoje é Ramarck, no Golfo de Middlebank. Foi tomado de assalto por um rei pirata, Lorde Borges Moorcraig”.

“Em que ano?”

“Um milênio antes da Rebelião, quatro séculos antes da invasão Orgoth. Os registros antigos não são muito precisos, mas essa é minha melhor estimativa”.

“Quando Lorde Toruk aniquilou os reis que não se curvaram a ele”. Sirac desviou os olhos de Gorzen e fitou a escuridão como se espreitando através dos séculos. “Toruk destruiu o Castelo Moorcraig pessoalmente e o condenou ao esquecimento com seu hálito e suas garras”.


“Sim! A lâmina deveria estar com os espólios. Lord Toruk nunca chegou saber isso – toda malignidade menor é invisível diante de sua presença, e Moorcraig nunca foi devidamente saqueada. As leis de Toruk proibiram a entrada de seus servos”.

Sirac se voltou a Gorzen, sua voz acusando. “Que tipo de jogo é esse? Está planejando se livrar de mim?”

Gorzen levantou as mãos, como se estivesse prestes a ser golpeado. “Eu falo a verdade! É exatamente o que eles me contaram!” Seus dedos compridos como pernas de aranhas tremularam sobre outros papéis desordenados antes de apanhar um e passá-lo para Sirac. Este possuía uma série de linhas desenhadas sobre um símbolo peculiar. “Nas catacumbas abaixo do castelo, em um lugar marcado com esse símbolo. Eu não estou te enganando, Lorde Sirac”.

“Eu não sou nenhum lorde”. Sua voz carregava um pouco de reprovação, enquanto ele falava distraído examinando o símbolo. “Embora eu saiba que esta palavra saia mais facilmente de sua boca do que ‘inquisidor'”. Seus olhos se voltaram para Gorzen, apáticos e frios.

Gorzen estremeceu diante da última palavra, relembrado do perigo. “Eles me disseram que eu estava protegido. Se você me trair, será condenado a morrer pela lâmina que procura. Te digo como um aviso”.

Os olhos de Sirac se estreitaram e seu lábio superior se curvou em zombaria. “Isso é indigno de você, Montlebore”. Ele enfiou a mão no casaco e mais uma vez Gorzen de encolheu. Porém, o inquisidor tirou dali apenas um pesado livro com uma capa de couro preto desfigurado por inscrições. “Aqui está seu pagamento, como prometido”.

O olhar de Gorzen se fixou faminto no livro de capa preta, acompanhando-o quando Sirac o jogou sobre a mesa, onde caiu com um baque surdo e o som de algo se quebrando abaixo dos papéis dispersos. Quando se virou para sair, Sirac pode sentir os olhos e suas costas, um olhar descrente, de um homem que não conseguia acreditar em sua boa sorte. Um sorriso surgiu nos lábios do inquisidor.

Ele desceu do último degrau da porta da frente da casa, se colocando diante de um grupo de homens em casacos similares. Eles se curvaram diante de sua aproximação. Seu líder era um zeloso e bem visto mago que Sirac havia roubado da Ordem da Iluminação. “Líder Inquisidor Sirac!” Ele o saudou com precisão militar.
“Tenente Reginold”. Sirac desprezava o tenente por sua ingênua compaixão, mas aquele homem tinha sua utilidade. “O homem nesta casa é definitivamente o infernalista que você estava procurando. Ele é depravado, bem protegido e irredimível. Você o encontrará protegido no porão. Ele deve estar invocando aliados enquanto falamos”.

A face do tenente se ruborizou de raiva. “Nós atacaremos com força redobrada, senhor. Não se repetirá o que ocorreu da última vez que nós o rastreamos”.

“Eu espero que não”.

“Vai liderar o ataque, senhor?”

“Não. Eu confiarei este a suas mãos capazes. Preciso pegar um barco para me encontrar com mo rei”. Dexer Sirac não olhou pra trás enquanto caminhava pela rua em direção das docas ouvindo as ordens do tenente atrás dele. Então vieram os sons de encantamentos, explosões e o crepitar de fogo.



Dexer Sirac sentiu alívio quando as docas de Caspia ficaram para trás. Ele ficara preocupado que o Rei Vinter mudasse de ideia e proibisse a expedição antes que ele zarpasse. Prever os humores do grande rei era complicado. O entusiasmo do soberano para esta arriscada viagem evaporara quando o Líder Inquisidor admitiu que suas pesquisas indicavam que a lendária lâmina precisava que seu portador fosse um poderoso arcanista ou sacerdote. “Que uso esta espada teria para mim?” O rei perguntou. Isto necessitou de cuidadosa persuasão para convencê-lo. No final, o pensamento de ver a arma nas mãos dos servos de Toruk incentivaram Vinter a autorizar a jornada.

De Caspia, cruzaram o Golfo de Cygnar e suportaram uma extensa parada na doca da cidade de Mercir, onde Sirac passou mais de um mês recrutando. Encontrar homens dispostos a desbravar águas cryxianas não era nada fácil. A Amante do Oceano finalmente partiu de Mercir a toda vela para o oeste além da Costa Quebrada em direção das perigosas ilhas que circundavam Scharde.

Sirac tomara a cabine do capitão, forçando este a se juntar à sua tripulação. O capitão não era um homem muito afeito à higiene, e Sirac teve de ordenar vários tripulantes que esfregassem a cabine antes que ele pudesse concordar em passar algum tempo ali. O inquisidor estava agora na cabine vestindo um oleoso casaco de marinheiro, ocultando todos os seus símbolos de autoridade. Mesmo sem seus distintivos, sua face sombria e postura confiante emanava ameaça e comando. Ele olhou pela porta, para o convés, e seus olhos saltaram de um rosto encardido para outro. A singular figura ameaçadora de Kell Bailoch estava próximo a ele. Kell havia aberto uma garrafa do melhor vinho do capitão – que não era grande coisa para qualquer paladar civilizado – feito das pequenas e azedas uvas que cresciam em Mercir. Kell engoliu a bebida fazendo dolorosas caretas enquanto aguardava pacientemente pela atenção do inquisidor.

Os dois haviam compartilhado bastante tempo juntos, o suficiente para que a tripulação acreditasse que fossem velhos colegas de armas, mas não era o caso. Sirac havia descoberto Bailoch em Mercir como um diamante em meio a um chiqueiro de porcos, e rapidamente se assegurou de ter seus serviços – pagamento adiantado. Isso aconteceu pois o atirador de elite ex-membro do Exército Cygnarano era o único contratado que Sirac sentia ser digno de sua companhia. Sirac sabia mais sobre o fuzileiro do que Bailoch suspeitava, pois se lembrava de seu nome da época em que se tornara um homem procurado após a queda dos mercenários da Companhia da Garra. Bailoch perdeu crédito e foi forçado a se tornar um matador de aluguel, mas sua perícia não diminuíra.

Sirac falou enquanto observava os homens no convés. “Qual sua opinião sobre meus contratados?”

Bailoch deu de ombros. “Cada um de nós é procurado pela Coroa: assassinos, incendiários, desertores. Eu quase pensei que sua expedição fosse um esperto estratagema e nós estivéssemos sendo levados pra Ilha Sangrenta. Dada a natureza clandestina desse trabalho, fica claro que nós somos descartáveis. Até onde sei, eu sou o único que deduziu sua verdadeira identidade. O resto pensa que vai viver pra gastar o pagamento”.

Sirac tirou os olhos da porta para encarar o rude fuzileiro. “Se eu quisesse buchas de canhão, teria pago menos e pego homens mais maleáveis”. Eles realmente já haviam causado vários problemas com lutas à bordo por humores inflamados. Quatro homens já haviam sido mortos; o último fora assassinado pelo próprio Sirac, para servir de exemplo. Fora incinerado vivo, mesmo encharcado de água, no meio do convés, à vista de todos, e deixado para gritar e queimar até cair para fora do barco.

Kell assentiu, concordando. “Eu disse dispensáveis, não buchas de canhão. Você tem vários caras durões. Combatentes experientes, um punhado de pistoleiros, lutadores de facas, mesmo os poucos magos conseguiriam cuidar de si mesmos em uma briga de taverna de Cinco Dedos. Um de seus magos é um especialista em deslocamento de terra, o que achei intrigante. Eu falei com um sujeito tatuado que veio de Warrens, em Ord – um cara fascinante. Ele estava com tiques nervosos por não ter matado ninguém em um punhado de semanas, e ele tem um colar de ossos dos dedões de suas vítimas. Acho que é canibal. Enfim, o sal da terra”. Sirac começava a apreciar a forma como Kell Bailoch se recusava a ser intimidado e a facilidade com a qual ele falava abertamente.

“Eles são mortais, mas eu não tenho tempo para forjá-los como gostaria”. A voz de Sirac saiu fraca e cheia de autocrítica. “Eu prefiro mais disciplina, mas eles servirão para a tarefa. E quanto ao capitão?”

“Capitão Bray? Apenas o tipo de canalha que você quer. Ele conhece essas águas. Ele já foi e voltou de Água Negra várias vezes, mas nos venderia em um piscar de olhos, se tivesse a chance. Isso vale pra todos à bordo”.

“Nós não vamos atracar perto de Água Negra, então ele não terá a chance. Eu confio em você para manter um olho nele, por enquanto”.

“E então o que? Incomodar ele com palavrões?” Este era um ponto dolorido que Kell Bailoch havia evitado. Enquanto na cidade portuária, Dexer Sirac havia pego seu rifle dizendo ter alguns ‘ajustes’ em mente. O fuzileiro estava parcialmente convencido que o mago tinha medo de deixá-lo armado em sua presença – não que ele não tivesse outras armas, mas se sentia nu sem Celeste. Nomeada após um velho caso amoroso, a arma era tão parte dele quanto suas mãos.

“Ah, eu tinha quase me esquecido. Tenho um presente pra você”. Sirac caminhou até o grande baú aos pés da cama do capitão. Ele o destrancou com uma chave em sua cintura e retirou um grande objeto enrolado em tecido. “Isso foi feito por um velho colega enquanto estávamos em Mercir”.

A cada dia que passava desde que Kell havia relutantemente se desfeito da arma, mais crescia sua dúvida quanto à verdade na promessa de Sirac. Ele puxou de lado o tecido, ansioso por sua arma, mas ficou confuso por um momento. Ela não se parecia com aquilo. “O que você fez com isso?”

O velho e familiar cilindro parecia completamente diferente. O metal obscurecido possuía agora inscrições de uma série de indecifráveis runas prateadas. Bailoch quase achou que o cilindro havia sido completamente substituído, se não fosse os traços parcamente detectáveis de onde o nome Celeste havia sido cravado no metal.

O mago inquisidor sorriu. “Inspecione”.

O assassino ergueu o rifle, abriu a culatra e piscou em surpresa pela falta do barulho familiar daquela operação. Ele rodou o mecanismo e observou de perto o cilindro antes de fechar a culatra novamente, e notou que não produziu nenhum som. Dexer Sirac sacou uma fina adaga de sua cintura e bateu sua ponta pelo cilindro. Não havia nenhum barulho de metal contra metal, apesar de Kell poder sentir a vibração. O inquisidor explicou. “Seu novo nome é Silêncio. Ela fará jus ao seu homônimo. Nenhum sussurro ou barulho quando disparada e você verá que está consideravelmente mais precisa que antes. Não que eu duvide de sua habilidade”.

Os olhos de Kell se arregalaram ao considerar a utilidade daquela arma de fogo. Ele baixou os olhos pro cilindro e sentiu as linhas entalhadas enquanto alisava com as pontas dos dedos. Ele admirava a forma como a empunhadura se firmava bem em suas mãos.

“Agora está convencido de que não te considero descartável? Eu pretendo fazer uso frequente de seus serviços futuramente” Sirac voltou a olhar pela porta, para o convés. “Quanto a eles? Se não eles mesmos…” E deu de ombros. “… ninguém mais sentirá sua falta”.

Poucas horas depois, bateram na porta da cabine e um jovem marinheiro tropeçou para dentro – um dos prestativos mantenedores do convés, forçados a suportar a companhia do pequeno exército de Sirac. “Senhor!” Ele falou com Sirac, olhando para Bailoch por um instante. “Temos um navio pirata cryxiano vindo pra cá! Estamos usando as cores de Água Negra, mas eles parecem sedentos de sangue”.

O Líder Inquisidor assentiu calmamente e caminhou até a porta. “Vamos ver se as frases código que extrai daquele scharde em Mercir resolvem o problema. Kell, venha comigo. Encontra um lugar no cesto da gávea e fique pronto para abater seu capitão e oficiais de convés ao meu sinal”.

Bailoch se juntou a ele com um simples aceno de cabeça, enquanto suas mãos alocavam os cartuchos selados com cera dentro da Silêncio. Os homens que esperavam do lado de fora da cabine quase caíram sobre si mesmos para sair de seu caminho.


Parecia que as frases código funcionavam. Sua tripulação miscigenada e o estado desordenado do navio pareceram convincentes o bastante para que passassem. Porém, após descer a bandeira, o cryxianos voltaram com a névoa da noite para emboscar o navio de Sirac próximo a uma das ilhas não marcadas que enchiam a Costa Quebrada.

Os atacantes jogaram cordas com ganchos e puxaram a Amante do Oceano para perto, iniciando com gritos de festa a abordagem. O que se seguiu foi uma sangrenta e brutal batalha, mas a tripulação de Sirac se saiu melhor que a dos emboscadores, com apenas algumas poucas casualidades para cair no abraço do oceano. O derramamento de sangue parecia agradar os homens de Sirac, e eles se sentiam encorajados ao ver o mago gritando encantamentos e raios e chamas sobre o convés adversário. Bailoch tirou mais vidas que qualquer um, disparando de cima do mastro, oculto pela névoa. Seu trabalho era feito com um sinistro silêncio – homens bloqueando sabres de repente encontravam seus inimigos tendo suas cabeças explodidas conforme a bala zumbia através delas com o barulho de um raivoso mosquito.

Eles agarraram o que puderam da lamentável pilhagem de comida rançosa e cerveja que parecia mijo, e então afundaram o navio antes de partir, com cinco marinheiros e dois mercenários a menos. Aquilo serviu de teste para a impetuosidade dos homens e Sirac ficara contente, pois confirmou que havia pago pelos tipos adequados de homens. A batalha ajudou a estreitar os laços entre os homens e a deixar de lado quaisquer rivalidades triviais que houvessem adquirido nas tavernas das docas de Mercir. Após a peleja, o capitão pareceu particularmente animado. “Seria bem mais feio se tivessem sido satyxis ou o Mortuário. Foi bom oferecer um pouco de sangue pras ondas, pra dar sorte”.


Dexer Sirac raramente era atraído para fora da cabine, mas fez questão de sair para ver as ruínas do Castelo Moorcraig pela luneta do capitão. Era uma rara oportunidade de ver a marca que Toruk deixava permanentemente na paisagem, não menos impressionante após os dezesseis séculos desde a completa destruição provocada pelo inigualável dragão. Sirac sabia que teria a oportunidade de ver aquilo de perto, mas achava intrigante ver as ruínas à distância. A silhueta denteada se avermelhando sobre a face do penhasco iluminado pela lua e estrelas.

Kell Bailoch murmurou perto dele. “Onde vamos atracar? Esse paredão parece intransponível”.

Capitão Bray estava pairando próximo a eles e respondeu em um tom baixo. “Deve haver docas abaixo, na base do penhasco. Antigas e traiçoeiras, abrigadas em alguma caverna escondida – barcos cryxianos são bem conduzidos”.

A voz de Sirac estava calma. “O lugar possui má reputação até para os padrões cryxianos. Nós não seremos perturbados”.

Kell Bailoch olhou para ele com uma expressão cética, mas não disse nada e eles seguiram seu caminho até a caverna oculta abaixo das ruínas.

O barco atracou no pier da enorme e escura caverna. Uma série de lanternas foram acesas e espalhadas lançando sombras em meio à escuridão, revelando antigos barcos naufragados pouco abaixo da superfície da água.

Sirac chamou por um brutamontes com vagos traços khárdicos chamado Kivel, que possuía histórico militar suficiente para saber a importância de se obedecer ordens. “Kivel, pegue uma dúzia de nossos homens e mate o capitão e todos os marinheiros. Deixe os corpos onde eles caírem”.

Kivel sorriu incerto pensando ser alguma estranha piada até perceber que Sirac falava sério. “Como vamos navegar de volta sem tripulação?”

“Deixe isso comigo. Faça o que eu disse e então traga seus homens de volta para a terra”.


A notícia do massacre da tripulação se espalhou rápido e todos entenderam a mensagem. Não haveria como subornar o capitão para zarparem antes da hora – seria uma longa estadia. Os homens não estavam animados para passar seu tempo escavando uma série de perigosas e antigas catacumbas. Vigiar a superfície das ruínas acima era a tarefa mais popular. A arruinada floresta próxima dali oferecia vários pontos de vigília, então Sirac relutantemente concordou em manter quase metade dos homens sempre ali, em meio às sombras, mas sempre vigilantes. Ele esperava que a proibição cryxiana sobre as ruínas mantivesse os intrusos distantes, mas era essencial que eles não chamassem atenção. Kell Bailoch foi ordenado a encontrar um lugar alto entre as malditas ruínas e eliminasse qualquer patrulha que arriscasse descobri-los.

Dexer Sirac liderou a expedição  nas catacumbas pessoalmente, escolhendo a dedo os mercenários mais capazes para acompanhá-lo. O mago Baen Rudlofte era particularmente útil por sua capacidade, sendo especializado em magias de deslocamento de terra. Sirac não contou a ninguém além de Bailoch onde iriam e dirigia os homens com um escrutínio paranóico.

De início, desenterraram horrores das profundezas, e já no primeiro dia perderam oito homens. Quatro foram dilacerados pelas dezenas de mortos cambaleantes que vagavam pelas câmaras, e dois caíram diante uma criatura oleosa com inúmeros tentáculos que os perseguiu por uma seção inundada. Dois outros foram esmagados por uma avalanche de pedras e detritos no colapso de um cômodo. As câmaras propagavam ecos de estranhos sons de sucção e de algo chapinhando em água, e o ocasional clangor de metal em câmaras distantes. Apesar de tudo, Sirac permanecia incansável e energizado.

Ao cair da segunda noite, Sirac e Bailoch se encontraram em uma câmara de um túnel abaixo das ruínas para discutirem os progressos do dia. Eles estavam comendo porções miseráveis de seus suprimentos, incertos sobre quanto tempo teriam de permanecer ali, mas permaneceram bastante liberais quanto ao escasseamento do estoque de vinho ruim do falecido Capitão Bray. O assassino não conseguiu resistir à pergunta. “Qual a importância dessa coisa que estamos procurando?”

Sirac o encarou por um longo tempo, e o silêncio começou a se tornar desconfortável. Então, ele disse uma única palavra: “Poder”. E se voltou para seu livro. Era uma cópia sobre história ancestral, um dos tomos que iniciaram aquela caçada.

Kell Bailoch fez uma expressão de zombaria. Ele achara a resposta totalmente inadequada, mas não voltou a questionar Sirac novamente.

Dexer Sirac de fato respondera com a verdade. O destino não havia contribuído muito para torná-lo um grande mago. Sua técnica era precisa e refinada, Sirac sabia que não era nenhum prodígio. Seus dons arcanos foram conquistados com muito trabalho duro, dedicação e incontáveis horas de estudo com tomos complexos e pergaminhos obscuros. Mais tarde, ele se focara em intrigas, e sua habilidade chamara a atenção do Rei Vinter Raelthorne IV, ainda no começo de seu reinado. Aquele grande homem havia reconhecido suas qualidades e lhe dera a oportunidade de dominar sua verdadeira arte.

As tarefas de Sirac a serviço do rei não lhe trouxeram prazeres e nem deixaram tempo para se aprofundar nos mistérios arcanos. Sua verdadeira arte era perfurar os corações e mentes dos homens, e tecer e desvendar ameaças de conspirações. Foi por isso que ele fora escolhido como Líder Inquisidor, ainda que ele soubesse o que seus pares falavam dele pelas costas – particularmente a elite arrogante da Ordem da Iluminação e da Ordem Fraternal. Sirac tinha prazer em recrutar destas organizações, trazendo seus magos para a Inquisição, arrancando-lhes suas ingênuas noções de ética e forçando-os a abraçar a crueldade.

Um segredo terrível o atormentava – o medo de perder sua utilidade e ser substituído por alguém mais poderoso. Quando descobriu a lenda da Fogo das Bruxas, ele soube que ela seria a chave. Aqueles que conspirassem contra ele seriam sacrificados por seu fio, e suas habilidades seriam sugadas e adicionadas à sua própria.

O livro que Sirac segurava contava a história do último portador da lâmina conhecido – uma vez um modesto sacerdote thamarita que embarcou em uma cruzada sangrenta contra ambos os cleros, morrowano e menita, para roubar as almas de dezenas de clérigos. Em apenas alguns anos, ele se tornara um dos mais temidos thamaritas que já haviam servido a deusa negra. Lendas diziam que ele se tornara um de seus Escolhidos após a morte.

Sirac não possuía aspirações espirituais, mas ainda sim poderia tirar proveito da espada. Como alto inquisidor, ele servia de juiz e júri para feiticeiros de todo o reino. Qualquer um nascido com poder bruto no sangue podia ser condenado por bruxaria. Líderes cultistas, thamaritas, infernalistas, ou mesmo magos que cruzassem seu caminho seriam mortos por suas mãos. Ele sorriu enquanto seus dedos passeavam sobre o texto de linguagem antiga que narrava os feitos sombrios de um sacerdote depravado.


Uma importante descoberta veio no anoitecer seguinte. Sirac não tinha necessidade de tocha ou lanterna, pois seu grande cajado brilhava com uma forte luz fria. Eles haviam escavado um caminho até uma cripta selada onde encontraram o símbolo descoberto por Montlebore. Sirac tocou o símbolo com os dedos e murmurou. “Sim…”

Com o balbuciar de algumas sílabas incompreensíveis, Sirac apontou para a tumba e permitiu que o poder fluísse para uma magia que destrancou a porta selada. Houve um barulho estrondoso, uma sensação de estremecimento e então um forte e agradável ‘click’.

Apenas três outros estavam com Sirac quando este decidiu descer ali, após as equipes de escavação terminarem o dia. Esses três haviam se voluntariado na esperança de impressionar Sirac e aumentar suas recompensas. Um deles era Kivel, que logo se colocou à frente do inquisidor como resposta a um aceno deste. Ele apoiou na fresta da porta uma barra de ferro para abri-la, sendo auxiliado por dois homens chamados Peel e Durst. A pesada porta deslizou para o lado e lançou sobre eles uma onda de ar rançoso e poeira asfixiante.

Foi enquanto eles tossiam devido à poeira que alguma coisa saltou da escuridão, agarrou Kivel, e puxou-o de volta para as sombras. Barulhos molhados de dilaceramento acompanharam um grito gorgolejante de terror. Peel e Durst tropeçaram para trás e sacaram as lâminas que pendiam de suas cinturas, enquanto Sirac avançou à frente estendendo seu cajado para espalhar luz pela câmara. Ele começava um novo encantamento sob sua respiração.

Encorajados pela bravura do mago e pelo término abrupto do grito de Kivel, os dois mercenários avançaram novamente. Durst era um esguio, mas forte caspiano, e segurava a espada com a postura de um espadachim veterano. Peel vinha atrás dele, mais velho e baixo, mas troncudo, com cicatrizes pelos braços e face.

Houve movimento nas profundezas da câmara, uma sombra contra a parede distante, então a luz de Sirac revelou alguma coisa negra e um reflexo de metal antes que a ela desaparecesse novamente na escuridão. Dois corpos mumificados em túnicas rotas saltaram contra eles. Suas caveiras ancestrais haviam perdido suas mandíbulas e seus olhos brilhavam com fogo verde e faminto. Ambos empunhavam uma lâmina curta em cada mão – ancestrais spathas de bronze. Os fios desgastados pela idade, mas empunhados com maestria. As túnicas eram feitas de malha metálica negra e flexível, que sobrevivera razoavelmente bem à passagem das eras. Com uma abaixada rápida, Peel tentou um corte, recebendo uma estocada de uma spatha no olho e sendo estripado pela outra. Foi a vez dele de gritar. O outro morto-vivo interceptou a lâmina de Durst, parcialmente defletindo seu golpe com uma arma, reduzindo os danos sofridos. Com a outra, atingiu seu peito, abrindo sua armadura de couro e deixando um corte superficial, mas sangrento.

Sirac finalizou seu encantamento, disparando um relâmpago denteado que atravessou toda a câmara, atingindo os dois mortos-vivos juntamente com Peel. Sirac julgou aquilo como um pequeno ato de misericórdia de sua parte. Os gritos de Peel cessaram com sua vida, enquanto o morto-vivo ferido por Durst caíra sobre este, sendo destruído com um golpe rápido do espadachim.

O outro resistira. Como Peel sangrava aos seus pés, sua face sem mandíbula de virou na direção do mago, encarando com um olhar maligno. Conforme começava um novo encantamento, Sirac se sentiu estranhamente tonto, como se privado de ar respirável. Seu encantamento se demorando e sua língua pesando em sua boca. O morto-vivo saltou por Durst antes que este pudesse agir e investiu contra Sirac. Um leque de chamas saltou da mão estendida do mago e se espalhou por toda a criatura sem conseguir pará-la. Sirac deu um passo pra trás e segurou firme o pesado cajado para interceptar as lâminas gêmeas, mas piscou surpreso quando o inimigo foi arremessado pra trás como por uma força invisível. A face mumificada explodida em pequenos fragmentos de ossos atingindo a parede distante.

Sirac novamente piscou surpreso e olhou por cima de seu ombro para ver Kell Bailoch empunhando Silêncio em meio a uma fina nuvem de fumaça que saída do cilindro.

“Belo tiro”. Sirac elogiou. O inquisidor não esperou, avançando ansiosamente pela câmara, ignorando o sangue e corpos dos homens que o acompanhavam. Bailoch ofereceu uma mão para Durst, ajudando-o a se levantar e viu que seu ferimento era sangrento, mas superficial. Sirac perguntou a Bailoch. “Porque você está aqui invés de estar no seu posto?”

Kell fez careta diante de tal agradecimento, avançando rapidamente para alcançar o mago e notando o ar rançoso com algum vapor tóxico. “Nós temos companhia lá em cima. Mas não é nenhuma pequena patrulha. Seus números nos superam”.

O assassino achou que estava sendo ignorado, devido ao silêncio de Sirac. Os olhos profissionais do fuzileiro varreram o salão. As paredes de um lado possuíam buracos para passagens profundas ainda a serem exploradas. No centro da câmara havia uma visão peculiar – um enorme amontoado de corpos arruinados aparentando terem escalado uns aos outros antes de todos morrerem. No alto, um braço estava congelado em uma posição que tentava alcançar algo na direção da parede distante.

Abrigada em uma alcova caindo aos pedaços diante dos esqueletos estava uma grande espada de lâmina negra com inscrições em algum alfabeto esquecido. Seu longo cabo para duas mãos terminava em um guarda-mão formado por duas faces demoníacas que vomitavam grotescas línguas que ‘caíam’ no sentido da lâmina. O pomo possuía uma face chocada com olhos reluzentes. A espada estava apoiada em um padrão semi-erodido na parede, aparentando imaculada e nova apesar de toda a decadência ao seu redor. Era fácil deduzir que muitas outras armas haviam ocupado aquela parede, talvez formando um padrão decorativo. Havia outras depressões vazias para outras lâminas e muito metal enferrujado espalhado pelo chão. Apenas a espada negra e algumas poucas adagas finas de obsidiana ornamentada haviam sobrevivido aos séculos.

Sirac avançou e imprudentemente agarrou a espada, fazendo Kell recuar. Mas não havia nenhuma armadilha, deixando seu local de repouso com um simples puxão. Durst olhava fixo para as adagas obsidianas e, após um hesitante olhar para ver se Sirac ou Bailoch possuíam objeções, apanhou-as para si. O mago tinha olhos apenas pra espada, inclinando a cabeça como se ouvindo algo que apenas ele poderia ouvir.

“Precisamos dar o fora”. Bailoch o lembrou. “Os homens estão sob ataque lá em cima”.

Sirac finalmente despertou de seu transe. “Ah”. Sua expressão registrando preocupação pela primeira vez. “Pegue os homens restantes e bloqueia a entrada principal. Eu me juntarei a vocês em um momento”. Kell assentiu e levou Durst consigo. Antes que saíssem da câmara, Sirac tirou um porta-pergaminho de bronze de dentro de uma algibeira em sua cintura, retirou seu conteúdo com cuidado e encarou as palavras do texto antigo. Assentiu para si mesmo, confiante de que poderia fazer o que planejava.

Em seu caminho para fora, Sirac encontrou o mago Baen Rudlofte, fazendo descobertas em uma câmara lateral. Vendo o cenho cerrado de Sirac e a lâmina negra em suas mãos, o mago pôs-se a segui-lo mansamente, após encher os bolsos com os detritos ancestrais que havia coletado. “Está ocorrendo uma batalha lá em cima. Preciso que você espere no navio, fora das catacumba. Fique lá, entendeu?” Aterrorizado diante de Sirac, o mago assentiu e correu para obedecê-lo.

A euforia de Sirac havia sido substituída por ressentimento por sua escavação ter sido interrompida. Agora que tinha seu objetivo principal em mãos, ele havia começado a pensar em quantas outras armas ou conhecimentos esquecidos poderiam ser recuperados nas câmaras daquelas catacumbas. A expectativa de retornar ao Rei Vinter com os tesouros de Moorcraig era muito atraente.

Esta esperança morreu quando ele caminhou para fora das catacumbas, para as ruínas superiores. Seus homens restantes estavam lutando uma batalha desesperada – os sons de pistolas e o clangor do choque de espadas eram acompanhados por gritos e berros. Faltavam horas para o amanhecer, mas a lua Calder brilhava cheia nos céus, despejando sua fria luz branco-azulada sobre a pele pálida e doentia dos atacantes.

A entrada estreita favorecia os defensores, mas Sirac pode ver um punhado de mecaniservos se aproximando. Esses eram cadáveres animados pelos demoníacos necrotécnicos cryxianos. Seus corpos eram fundidos a uma massa de tubos contorcidos como intestinos artificiais, e armados com pesadas manoplas com cravos fortalecidas por pequenos motores a vapor, tornando-os capazes de matar um homem com um único soco. Seus homens haviam sido bem escolhidos e possuíam habilidade, mas estavam claramente superados pelos números inimigos. Vários estavam mortos ou morrendo no túnel. Kell Bailoch havia se posicionado atrás, olhando por sobre as cabeças dos combatentes e disparando tiro atrás de tiro sobre os mortos-vivos. Ele tentava ao máximo impedir que reforços alcançassem os combatentes.

A luz da lua de repente foi eclipsada por uma enorme silhueta diante da entrada. O sangue abandonou o rosto de Sirac ao ver a monstruosidade que se aproximava por trás dos mecaniservos. Era uma terrível coisa blindada caminhando sobre estranhas pernas articuladas. Possuía três vezes o tamanho de um homem, com asas de couro esfarrapado se estendendo das costas. A criatura encarou os inimigos a frente e aspergiu sobre eles um vômito verde doentio que cobriu dois dos homens de Sirac que estavam no centro da linha, por pouco errando Kell Bailoch que saltou para o lado. Os gritos de agonia ecoaram dolorosamente conforme eles caíam ao chão. O líquido ácido vaporizado dissolveu rapidamente sua carne. Sirac nunca vira uma criatura como aquela antes, mas deduziu sua identidade devido a descrições lidas em certos tomos antigos. Uma parte dele insistia que a criatura não deveria estar ali, tão distante de seus domínios, porém, sua presença era incontestável.

Kell estava mirando Silêncio contra a abominação, quando Sirac tentou detê-lo. “Não! Não atire –”

Seu aviso chegou tarde. Mesmo antes de Kell começar a puxar o gatilho, a cabeça da criatura se levantou. Ela apanhou um servo e o elevou, interceptando o disparo do fuzileiro. A cabeça do mecaniservo explodiu e a abominação largou seus ossos e metal ao chão, olhando para Bailoch com interesse renovado. Um buraco havia sido aberto na linha de defesa onde os dois homens atingidos pelo ácido haviam caído, e os mecaniservos começaram a avançar.
Sirac puxou Kell para trás. “Aquilo é um Lorde Lich! Essa batalha está perdida. Nós temos que voltar para o navio”.

Kell nunca encontrara um alvo que não pudesse ser derrubado por seu rifle, mas concordou relutantemente em recuar. Ele ainda disparou por alguns momentos contra os mortos-vivos, empurrando-os de volta. Durst e um pistoleiro próximo a ele chamado Lank viram os dois deixando o local e rapidamente seguiram-nos.

Sirac demorou por um momento em sua pressa, ponderando sobre as habilidades da espada negra em suas mãos. Ele parou e focalizou sua vontade, ganhando confiança conforme sentia o poder da espada respondendo. Subitamente, os mecaniservos dos quais eles estavam fugindo de repente caíram sob o domínio da Fogo das Bruxas – eles pararam abruptamente e se voltaram. O lorde lich soltou um uivo conforme eles investiam contra ele, socando suas pernas blindadas. Sirac sabia que ele estava apenas atrasando a profana criatura – seu poder era maior que o de qualquer outro naquelas ilhas, com exceção apenas do próprio Rei Dragão.

Sirac voltou a se apressar descendo pelos corredores e empurrando Kell Bailoch consigo – o fuzileiro havia parado para ver o que o estava atrasando. Os outros dois haviam corrido direto, claramente aterrorizados. Atrás deles, os sons dos mecaniservos sendo dilacerados.

Eles podiam ouvir a criatura perseguindo-os após um curto adiamento provocado pelos mortos-vivos usurpados por Sirac. O mago esperava que aquelas passagens estreitas atrasassem a enorme criatura, mas temia que os corredores não fossem estreitos o suficiente. Ele murmurou por baixo de sua respiração. “Baen, se você não tiver me obedecido…”

Baen olhou para Sirac como se estivesse insano. Seus olhos estavam arregalados e deu um passo pra trás ao ouvir os sons de aproximação do lorde lich. Ele finalmente entendeu o que lhe fora pedido, então levantou a mão tremendo. Ele gaguejou enquanto tentava invocar as sílabas corretas para a magia. Sirac cerrou os dentes em uma frustração furiosa diante do mago incapaz de terminar a invocação, assustado demais pra conjurar apropriadamente.

Em um ato de loucura desvairada, Sirac rosnou e arremeteu contra Baen, empalando-o com a Fogo das Bruxas, enfiando-a profundamente no peito do mago. Baen encarou Sirac com um horror paralisante, como se sua alma fosse arrancada de seu corpo. Para Sirac, a sensação foi de um prazer doentio e ele sentiu uma fração de poder e conhecimento fluindo através da lâmina e para dentro de sua mente. Ele sabia que experimentara apenas uma pequena amostra do potencial que teria com o tempo e preparação corretos para conduzir uma cerimônia apropriada.

Talvez porque a magia havia estado entre os últimos pensamentos de Baen, o poder e as sílabas piscaram brevemente na mente de Sirac, como se absorvidas mais nitidamente. Sirac se virou para ver o lord lich abrindo caminho pelas catacumbas em uma postura triunfante. Sirac apontou para o teto acima e pronunciou as palavras da magia de Baen. O teto da caverna onde ele apontara brilhou e se tornou lama. Houve então um grande estrondo e um massivo colapso de enormes pedras, lama e detritos, que soterraram a abominação erguendo uma grande nuvem de poeira.

Sirac chutou o corpo de Baen liberando a Fogo das Bruxas. “Pro barco!” Kell, Durst e Lank estavam encarando os acontecimentos em um silêncio aturdido, mas se apressaram em obedecer. “Aquilo não está morto. Precisamos fugir”.

Ainda avançado, Kell se aproximou do mago. “Você matou todos os marinheiros. Nós quatro não seremos capazes de controlar o navio”.

Outro sorriso frio surgiu nos lábios de Sirac. “Tudo será providenciado, meu amigo. Nunca duvide de mim”.

“Eles alcançaram as docas ancestrais e encararam seu solitário navio. Sirac levantou a Fogo das Bruxas acima de sua cabeça. Todos eles sentiram um instante de náusea, conforme uma onda de antinaturalidade e energias malignas se espalharam como um vento carregando a praga. Durst exclamou e apontou para os vários corpos no convés que se levantavam de seu descanso eterno. Mais subiram vindos do convés inferior. Esses marinheiros assassinados, agora animados como uma paródia de suas antigas vidas, voltavam a realizar as tarefas que desempenhavam quando vivos, desamarrando o navio do pier e levantando a âncora.

Kell fora o único que permanecera imperturbável. Ele comentou calmamente. “Sua nova tripulação pode chamar atenção quando retornarmos”.

Sirac deu de ombros. “Eu os enviarei para dentro do oceano, quando estivermos próximos de Portão Alto. Vou garantir que não haja perguntas”.

Assim, Dexer Sirac caminhou triunfante para dentro de seu navio, e seus três companheiros sobreviventes não tiveram outra opção além de segui-lo. O navio zarpou, saindo da caverna escura para a dentro da névoa noturna que brilhava sob o luar. Com a Fogo das Bruxas em mãos, o Líder Inquisidor se pegou visualizando os novos caminhos que seguiria no futuro. Novos esquemas começavam a surgir em sua mente, enquanto ele considerava os passos necessários para conduzir o mais poderoso ritual da espada. Ele estava muito distraído para notar Kell Bailoch observando-o cautelosamente, como se finalmente compreendendo a verdadeira natureza do homem a quem agora ele estava conectado.

Fim

2 Comments

  1. Inácio

    Ótimo esse conto!!! Formidável!! Agradeço aos Bucaneiros pela tradução!

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    1. Capitão Bucaneiro (Post author)

      Sensacional né? Altas idéias!

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