Misturar Tudo ou Não Misturar? Eis a Questão

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Como lidar com Misturas Livres em Reinos de Ferro? [e devo misturar com o Unleashed?]

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Alguns jogos de RPG incentivam a mistura, neles tudo é permitido: Anão Bruxo, Halfling Cruzado, Aasimar Paladino e assim por diante. Raças, classes e devoção estão ali para serem misturadas, criando coisas legais e outras nem tanto assim.

O motivo para os principais jogos de fantasia medieval serem politeístas é exatamente para facilitar essa mistura. Ninguém está certo ou errado, todos os deuses coexistem e são necessários.

Felizmente ou não, essa não é a proposta do mundo de Reinos de Ferro. Por quê? Irei explicar agora.

Etnias

Reinos de Ferro nos apresenta mais de 10 grandes etnias e cerca de meia dúzia de etnias menores. Cada uma delas com seu histórico peculiar e ignorá-las é ignorar parte fundamental do cenário. Uma mesa com um Khard e um Umbreano tradicionais sem discussões xenofóbicas seria quase impossível. Um jogo onde se tenha um Tordorano nobre e um Thuriano das ruas será um palco perfeito para discussões de classe.

E estamos falando apenas das etnias. Sim, elas devem ser misturadas, uma mesa deve ter todo tipo de etnia, mas até esta mistura pode gerar conflitos e talvez, para um determinado tipo de jogo, um ou outra etnia deve ser ignorada. Afinal, em um jogo com militares cygnaranos de alta patente possivelmente não se encaixem personagens de nacionalidade não-cygnarana.

Raça

O mundo de Reinos de Ferro é um mundo de humanos. Os monarcas das terras humanas são humanos, seus nobres são humanos, os generais são humanos e 99% dos PNJs mais famosos são humanos. Os não-humanos têm seu próprio mundo a governar. Você não verá um prefeito iosano ou um barão rhulês. Do mesmo modo, ignorar problemas que a interação entre um Nyss e um Iosano pode causar, é ignorar o histórico do jogo. Ainda assim, existem raças que podem não ser bem vindas para determinados tipos de jogos.

Carreiras

Reinos de Ferro até o momento, contando apenas com o Fantasia Forjada em Metal, está beirando suas 60 carreiras. É carreira pra lascar o canto, mas nem tudo deve ser misturado levianamente. Uma mesa com um caçador de magos + um conjurador de guerra + um intercessor thamarita + sacerdote de cyriss = MUITO PROBLEMA. Simplesmente não é aconselhável. Eles não são feitos para trabalhar juntos. “Mas Rafão, a graça do RPG é misturar”, bem, sim e não. A graça do RPG é fazer uma história interessante e no caso, quando jogamos num cenário pronto, parte da graça é seguir a sua lógica. Logo, algumas loucuras podem ser bem interessantes, outras nem tanto, pois foge à lógica e bom senso do cenário.

Divindade

Acho que não preciso falar nada. Praticamente todas as religiões do cenário são monoteístas e guerreiam uma contra a outra. Se não houver bom senso, uma mesa com um paladino da ordem da muralha e um sacerdote de morrow pode bagunçar tudo.

MAS NEM TUDO É CHORO

ygygAdoro usar o exemplo do romance Called to Battle. (Spoiler alert) No capítulo Judgment, Narn, aquele caçador de magos fodão, careca e com duas espadas badasses, está no encalço de um feiticeiro. (Aconselhável ler bem rápido daqui para frente)Ele descobre que o feiticeiro foi caçado por outro caçador de magos, e que este caçador de magos não o matou, e que o feiticeiro se converteu à Scyrah, que ele aprende a falar em shyr, que ele é um feiticeiro muito louco com sangue orgoth nas veias e tem uns irmãos muito loucos, para enfim Narn aprender a respeitar esse humano e o ajudar a se livrar de seus irmãos, aí minha mente explode. BOOOMMM!!! (Pode voltar a ler normalmente)

O que isso quer dizer? Que nem tudo que você acha que está certo está certo e com bom senso, muita coisa pode ser feita.

Ok, mas e sobre o Unleashed?

Primeira coisa, a Privateer Press lançou o Fantasia Forjada em Metal separado do Unleashed por vários motivos e um deles seria para não precisar explicar o pode e o que não pode misturar. Unleashed é um novo jogo, com suas regras e suas características. É hiperaconselhável sua mistura, mas cada um no seu mundo. Você pode ter uma mesa com personagens do Fantasia Forjada em Metal trabalhando junto com aliados feitos com o Unleashed. Hiperaceitável e interessante. Pode também colocar os personagens de seus jogadores contra inimigos feitos com o Unleashed. Mas o livro desaconselha misturar os jogos, pegando carreiras de um e misturando com a do outro. E irei falar o porquê abaixo:

Fiz uma analise com as “carreiras genéricas”, aquelas carreiras com a menor carga de background e mais usadas para compor o personagem.

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No Unleashed temos: Arqueiro (Archer), Bandoleiro (Brigand), Cacique (Chieftain), Guerrilheiro (Bushwhacker), Monster Hunter (Caçador de Monstros), Scout (Patrulheiro… Ela se repete), e Warrior (Guerreiro); a maioria destas disponíveis em português aqui no Reduto.

No Fantasia Forjada em Metal temos: Aristocrata (Aristocrat), Assassino (Cutthroat), Caçador de Recompensas (Bounty Hunter), Cavaleiro (Knight), Duelista (Duelist), Espião (Spy), Explorador (Explorer), Fuzileiro (Rifleman), Homem de armas (Man-at-Arms), Investigador (Investigator), Ladrão (Thief), Oficial Militar (Military Officer), Patrulheiro (Ranger), Pirata (Pirate), Pistoleiro (Pistoleer), Salteador (Highwayman) e Soldado (Soldier);

A primeira coisa que observamos, é que o Fantasia Forjada em Metal possui mais profissões, o que é bem normal em locais mais desenvolvido. Quando mais evoluímos tecnologicamente, mais profissões específicas nascem. Isso é uma coisa bem importante. Um Homem Crocodilo não é desenvolvido para aprender as táticas militares de um Soldado, ou muito menos a se comportar como um Homem de Armas. Para ele as coisas são mais primitivas, logo ele será um Bandoleiro, Guerrilheiro ou Guerreiro.

Em termos de regras, isso demonstra que existem táticas mais modernas e táticas mais arcaicas. Em termos de ficção, demonstra uma clara diferença cultural.

Seguindo essa analise, foram 7 carreiras do Unleashed contra 18 do Fantasia Forjada em Metal.

Se somarmos as habilidades são 80 no Unleashed (retirando as Especializações) contra 93 do FFM (retirando especializações, Controlar Gigante e Manobras).

Logo, as carreiras do Unleashed possuem MUITO mais habilidades por carreira, como se eles tivessem que fazer mais coisas em uma mesa carreira, como se fossem menos segmentadas. Tipo a ideia de caçadores-coletores. Conseguem entender o lance?

No mundo moderno (Fantasia Forjada em Metal) você se especializa mais, pegando pistoleiro e salteador para ser um terror das estradas. Já no mundo selvagem, isso é tão normal, que apenas o Bandoleiro ou Guerrilheiro fazem esse trabalho.

Misturar as carreiras gera redundância e principalmente, tira o brilho de cada um dos mundos. Se um Explorador civilizado pode comprar as mesmas habilidades de um Arqueiro e um Arqueiro puder comprar as habilidades de um Soldado, nós tiramos o brilho da evolução tecnológica e da tradição. Afinal, mesmo estando no século XXI, ainda não temos povos isolados que são melhores em uma determinada arte ou segmento? Logo, Reinos de Ferro tenta emular exatamente isso. Lembram dos Arqueiros de Yuyan do Avatar: A Lenda de Ang? Então, a mesma lógica.

Além disso, os livros não foram feitos para trabalhar em conjunto deste modo, quando você toma como exemplo, Conexão (Qualquer) você não pode comprar Conexões do outro livro levianamente.

MAS NEM TUDO É CHORO

Assim como no romance, nem tudo é escrito em pedra. Recentemente a Privateer Press lançou a aventura 1AR, uma aventura que se passa mais de 600 anos atrás, no momento da revolução contra os Orgoth. Para fazer as fichas dos personagens jogadores, eles misturaram carreiras dos dois jogos (misturaram apenas as carreiras genéricas, essas que eu mostrei acima). Foi uma sacada legal, pois penso que 600 anos atrás não tínhamos pistoleiros, tínhamos Guerrilheiros ou Bandoleiros, mas já tínhamos Duelistas e Assassinos. Assim, eles misturam e ficou muito bom.

Eu, de modo pessoal, acho que essa mistura pode ser interessante, mas sempre atrelado a uma pesada carga ficcional. Talvez um Sinari criado no meio do mato tenha caído em batalha, levado para o mundo civilizado e encontrou nas fileiras do exército o seu lugar. Ele será para sempre conhecido pelos seus modos estranhos e nada ortodoxos lutando com um rifle, cimitarra e arco no meio do campo de batalha. Afinal, na segunda guerra mundial existia um soldado que lutava de katana… Ele é lembrado até hoje.

Talvez um borgoi saqueou terras por muitos e muitos anos (Bandoleiro) até ser feito prisioneiro, jurado lealdade e agora faz parte das fileiras da Guarda Invernal de Khador.

Adicionalmente, você pode usar o outro jogo como um plus, talvez pegando uma habilidade de outro jogo e concedendo como presente ao longo da campanha, naquele momento especial onde se aprender algo novo com um NPC interessante, ou mesmo quando chegar a 150 XP, criando sua própria técnica.

Finalizando

Reinos de Ferro não é um cenário onde todo de tipo de mistura é bem vinda. Pense como se estivesse jogando Mundo das Trevas da White Wolf, os personagens de diferentes jogos podem trabalhar juntos, mas será preciso bons motivos, muita carga ficcional e guiar o jogo com muito cuidado, pois será um jogo delicado desde o começo.

Depois de todas essas dicas e toques, sejam felizes, joguem e se divirtam.

8 Comments

  1. David Harrison M. Nadotti

    Muito bom cara, bastante esclarecedor !

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    1. Capitão Bucaneiro (Post author)

      Agradecido

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  2. Ricardo Tiosso

    Excelente! Sempre segui a mesma lógica de raciocínio. Mesmo quando aparece aquele jogador que quer ser o “diferentão”, ainda surgem ótimas oportunidades de RP e um grande desafio para o mestre! Muito bom!

    Só não entendi um ponto, Capitão Bucaneiro, de onde vem a regra dos 150 pontos de xp para se criar a própria técnica? Por ela, dá para se emular as habilidade exclusivas dos Conjuradores de Guerra do Warmachine, como por exemplo “Killbox” do Magnus?

    Novamente, parabéns!

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    1. Capitão Bucaneiro (Post author)

      Bem, talvez não tenha sido claro. Ao chegar no 150 XP talvez você queira dar ao jogador uma habilidade única, algo diferente. Talvez permita que ele usar duas armas grandes, como o fennblade. Como algo exclusivo. Quando mais conhecer do cenário, mais aprenderá o que pode e o que não pode criar sem quebrar o jogo.

      Obrigado

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    2. Roxx

      “Só eu que permito a mistura de carreiras Unleashed com Full Metal Fantasy?”

      Sim, só você.

      Mestre supremo
      O combinador
      Artista de Cryx
      Viajante de Skarn
      Barroco dos mercenários
      Rei híbrido

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      1. Capitão Bucaneiro (Post author)

        Alguém de um oscar para esse rapaz aqui

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  3. lavaborder

    Aloha

    Muito legal o material. Ficarei no aguardo da PP lançar um “lutador de rua” humano e sem muitas restrições. Curti muito o paragrafo final esse está anotado para minhas futuras concessões na minha campanha.

    Aloha

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    1. Capitão Bucaneiro (Post author)

      Cara…acho dificil que saia, pois você pode emular muito bem com um assassino ou duelista. Como não existem artistas marciais além dos monges de menoth, acho que não deve rolar.

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